domingo, 15 de novembro de 2009

Corporescer


Hoje acordei um pouco entristecido. Talvez efeito de coisas que se descortinam com o desenrolar dos dias, com o que se dá a conhecer gradativamente, no acontecimento de uma vida. Eu me entristeci e chorei levemente, por um luto imaginário, pelas coisas do mundo, que vêm e que vão. Eu me entristeci porque compreendi que a vida não é controlável. Que nada realmente podemos prever. Eu me entristeci porque entendi a necessidade de velhos hábitos partirem, nos deixarem, para que assim, se possa viver uma vida mais plena, mais possível. Eu me entristeci porque existe muito mais além de nossa própria dor. Eu me entristeci porque, no fundo, não quero estar só, quero pedir ao meu mundo, a minha vida, "não me deixe, não vá embora." Mas um dia tudo acaba, tudo vai embora, tudo parte. Eu me entristeci porque entendo que devo crescer. Eu me entristeci porque entendo que devo me juntar, sair da diluição, deixar o pequeno isopor a que me seguro no meio do oceano ir embora, e começar a nadar. Me entristeci porque ainda não sei nadar, e só vou saber no dia em que meus pés começarem a se debater sobre a água e minha respiração se acelerar junto aos batimentos dos meus braços, numa irresistível vontade de viver. Deixar isso explodir, nadar, ser forte até o fim, mesmo que já quase sem forças. Não importa. Tudo acaba, no fim, mas deixa restos de matéria que servirão para construir novos possíveis. Eu sou, eu fui, agora venho sendo. Infinitamente, eternamente.
Dança comigo junto a estas estrelas?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pequenos insones

Sempre tive medo de armas brancas. Facas afiadas furam e cortam ao mesmo tempo. A lembrança de pequenas feridas anteriores faz desejar não saber como é uma deste tipo. E faz pensar que a "verdadade" é um instrumento de furo e corte. Nem sempre eficaz.

***

Lá fora já ouço os pássaros cantarem, anunciando a manhã. Não ouso olhar a hora no relógio; só sei que minha cara vai estar uma droga amanhã. Desconcertado, como um relógio antigo desmontado sobre a mesa, onde cada peça está disposta a distância milimétrica uma da outra, por ordem de tamanho. Meu analista é um relojoeiro. Eu, peças dispostas em um divã.

***

Não sei o que vem depois. Acho que nada. Mas a palavra quando arte, também conserva. Será que eu poderia viver eternamente como uma palavra? A palavra não morre, não importa a língua. Palavras muito restritas fenecem, mas ainda persistem em escritos conservados. E mesmo que sumam, suas raízes ainda persistem nas palavras novas que advém delas, suas filhas e netas.
Deve ser estranho - seria estranho, penso - quando me "falassem" e eu imagino que poderia sentir o ar sair das dos pulmões e reverberar nas cordas vocais, o cheiro e a vibração do palato mole ao soar minhas letras. O odor da comida e das secreções do corpo perfumariam minha forma etérea. O perfume do hálito melado de carne, fluídos e ar. Há gosto de metal na minha boca. Cobre, descubro. Cheiro de uma pequena morte a caminho, como tempestade a chegar. Chumbo. E acordaria, espreguiçando-me numa consciência criada sobre palavras de amor, ou subitamente, como de um pesadelo nas vozes do ódio. A vida das palavras também não deve ser fácil...

Du Désir, by Gaiman


"Então, o que é que eu quero? perguntou-se. Ele não conseguia responder, por isso apenas continuou andando devagar, entrando cada vez mais fundo na floresta. As árvores pareciam familiares, momentos de paisagens pareciam perfeitos déja vu. Será que estava andando em círculos? Talvez ele fosse só andar, e andar até que os esquentadores e os doces acabassem, e, então, se sentaria no chão e nunca mais levantaria." (Trecho do livro "Deuses Americanos, de Neil Gaiman. p. 128, Conrad Livros editora).

sábado, 7 de novembro de 2009

Ele só me disse, no auge da sua sofreguidão pela abstinência por um cigarro: "eu acho que você vai se dar muito bem... não sei, eu sinto isso dentro de mim..."
Talvez ele nunca saiba o quanto essas palavras tão simples foram importantes naquele momento...
ali, reencontrei mais um respiro para seguir adiante.
obrigado...
tudo vai dar certo...
C.

Splein de verão...


Cansaço.

A correria do cotidiano, aliado ao calor desmesurado e abafado da cidade, me deixam o corpo mole. Meu corpo todo malemolente pede uma cama, grita por travesseiros, frio e cobertores pesados. Ao invés disso, os céus se resolvem emburrar e fechar em nuvens cinzas, de beiço com os pobres mortais caminhando sobre a laje quente. Como numa estufa de flores murchas, meu corpo sua intensamente, destilando água, proteína e fel que amaldiçoa esses dias de bafo úmido. Faz acreditar que o inferno não está abaixo, mas aqui mesmo, na superfície - isso, claro, se eu acreditasse em inferno. (Pensando bem, posso passar a acreditar, se sobreviver a este verão com algum conforto...)
Minha cabeça fica pesada, as pernas finas e brancas como leite amolecem. Creme-de-homem-de leite... Minha acompanhante constante, a neurose obsessiva, resolve aparecer para dar um alô e repetir incessantes vezes na cabeça tal um disco arranhando: "isso deve ser alguma doença mais grave..." Penso em ir ao médico (de novo). Penso em muitas coisas, no passado, no futuro. Mas o único lugar onde estou, óbviamente, é no aqui e no agora. Quente demais, sempre resolvo voltar aos dias de inverno rigoroso de minha terra, onde acordávamos de manhã cedo, eu e meu irmão, estupefatos porque o matagal ao lado de casa estava branco como um manto de algodão. Imaculado gelo. Antes de ir para a aula, passávamos no matinho, a brincar naquela superfície lunar. Amávamos outros mundos, nunca apenas os nossos. Oh, tolo ressentimento pelo que se foi. As vezes, neuróticos como eu se agarram a seus sinthomas como se estes fossem tesouros preciosos. Deixar ir é sempre a parte mais difícil, em tudo.
A última grande nevasca que tivemos por lá foi em 1994, dois anos depois do falecimento de minha amada avó. Começou no final da tarde, quando eu e minha mãe havíamos ido buscar o velho fusca branco na oficina. Aproveitamos para levar um pequeno cãozinho da mascote do lugar, que havia dado a luz alguns meses antes. Enrolamos ele em um manto de pelúcia macia, enfiei-o dentro do casaco e entramos no carro. Umas coisas estranhas, branquinhas e pequenas começaram a cair do céu - eram cinco horas da tarde, exatamente.
As nuvens estavam escuras, o frio era seco e chegava a doer nas faces. Nada aquecia. E aquilo não parou mais de cair, como se fosse algodão do céu. As nuvens haviam sido passadas em algum triturador, e aqueles pedacinhos eram suas lindas lascas de sutileza.
Aquele evento não parou até a manhã seguinte. Seguindo pela noite, os flocos de neve caíam como pequenas estrelas do céu, e com a paciência que é pertinente da natureza, foram lentamente se acumulando. Deixei a as persianas abertas durante a noite, apenas para, entre um acordar e dormir, ver se eles ainda estavam lá, se aquela neve toda era real. E eu lembro de olhar pelos vidros, meio entorpecido, e antes de voltar a dormir, sorria: era feliz.
Ao acordar pela manhã, que surpresa! Abri a janela, enrolado no cobertor, e tudo era imaculadamente branco! Um mundo de silêncio; nenhum pássaro cantava, nenhuma palavra se ouvia, nenhum carro passando, nada. Somente aquela colcha branca e fofa de neve que cobria cada rua, cada fresta, cada pequeno telhado das casas. Mesmo o céu era completamente alvo, confundido e apagando a existência de qualquer linha que pudesse definir o horizonte. Foram mais de cinco centímetros de neve, beleza e silêncio...
E depois volto no tempo e lembro da primavera, em um único dia onde me senti confortável e feliz ao calor: junto da pedra e a cerquinha do nada, no meio de um matagal verde-intenso, salpicado - sarapintado, como diria Roland Barthes - de pontos amarelos: minhas amadas flores de dente-de-leão, onde, mais tarde, as veria descritas com maestria e doçura no livro de Ray Bradbury, "O Vinho da Alegria". Mesmo o que não volta, se reatualiza em um momento que ilumina o coração, como a luz dourada do sol engarrafado, como belamente ele descreveu
Hoje, em meio a chuva, neuroses e medos, me senti um tanto solar. Engoli luz, e agora tudo em mim é brilho.

C.


(A foto é de família. Mostra a mim com cerca de 5 anos).

sábado, 31 de outubro de 2009

Devir animal e vegetal, (ou, quando, no verde, segui sendo...)


Era 1h30min da manhã. Insone. Uma angústia de não sei o que me atravessava - espada cravada nas entranhas. Andando pela minha casa, buscando algo a fazer para aplacar um corpo cansando demais até para descansar.

Amo as manhãs, o nascer de um sol dourado em um céu verde-água. Mas amo-a para me manter adormecido; é como estar aninhado em nuvens e coberto com lençóis de luz. Para viver, prefiro o fim de tarde e a noite. Ser vespertino, tenho a sorte de ainda poder ouvir, desta terra, o barulho de grilos e o farfalhar de folhas ao vento.

Mas a noite escura me chamava, a luz artificial do poste incomodava e eu queria algo mais fundo. Entrei em alguma forma de devir-animal, onde apenas queria me aninhar em uma toca escura, como uma raposa cava sua toca entre as raízes da árvore centenária. Ao fundo da terra, há um mundo mais fresco.

Saí para fora de minha casa, dessa pele a que Hündertwasser tinha tanto estudado. Me despi mais uma vez, dessa vez das roupas. Ao lado de minha casa há um terreno baldio. Era noite, a lua era cheia, eu era ensandecido e sabia que não haveria viva alma nessa terra de pequenices. Desci as escadas onde tantas vezes caí e me ergui na infância, passei pela calçada da frente de casa e entrei no pequeno matagal que há ao lado de minha morada. As folhas estavam muito verdes, cheias, alimentadas por sol, chuva em abundância e temperatura adequada. Estavam plenas em suas existências breves, prontas para uma vida que, mesmo se sabendo curta, seria intensa.

Caminhei num passo lento, cerimonial, como se estivesse entrando em terras desconhecidas, tentando, desnudo, dizer que vinha em paz, que me recebecem, por gentileza. Um vento mais forte soprou, as folhas roçaram de novo, eu tomei aquilo em meu coração como um "entra". E fiquei um tempo ali, parado, meio bobo, meio estúpido, pensando em minha pequena loucura que tanto bem me fazia, que tanto contemplava o que desejava em meu mar de verde esmeralda e flores em botão. E resolvi que me deitaria, ali mesmo, esperando um pouco do abraço do pequeno pedaço de terra entre a casa de madeira e a de concreto.

Ah... a Gaya é mãe generosa que tira mas também dá.

Senti na minha boca gosto de erva cidreira e açúcar. Havia no ar um cheiro muito suave de flores diversas, ao qual eu poderia imaginar de acordo com os acordes de cada odor. Eu via em minha mente pequenas cores brilharem como estrelas, e uma abóboda constelar se formara sobre mim, enquanto a lua cheia, grávida e plena, iluminava minha pele, deixando-a mais pálida do que já é. Pequenas abelhas suplicantes pousaram sobre meus mamilos róseos, e não temi ser atacado ou ferido. Ao contrário, sentia-as baterem asas sobre os mesmos, me causando uma sensação um tanto erótica, quase me levando a um êxtase de outra forma que o sexual. E então sorri, feliz, porque os pequenos vagalumes que habitavam as dobras das palmas saíram de seus esconderijos para brilhar numa noite que se fez festa com abelhas e sapos coaxando, enquanto grilos entoavam cantos de sedução e abelhas me beijavam o peito como flor, extraíndo um mel de gôzo, talvez mais doce que seu mel dourado. Eu era um alimento sagrado, recheado de dourado do sol e polvilhado pela prata da Lua.

O vento passava sobre meu corpo nu, me beijando a pele, me acariciando o sexo e aliviando o cansaço da carne por um dia estafante, quente e incerto. Nesse momento, eu sabia que queria ser recebido pela terra. Parecia que a qualquer momento ela se curvaria para dentro, e devagar me engoliria para dentro de si, enquanto aquele regozijo continuaria lá fora, e meu sono eterno se consumaria entre as raízes e os restos do mundo. Eu seria apenas mais um estrato, mas também matéria de produção para tanto mais.

Foi ali que eu acreditei em imortalidade. Não da alma, nem da consciência, mas da vida e do desejo. Eu fui. Deixei de ser. Estou sendo novamente. Ah, minha loucura companheira, até o próximo uivo do coração descompassado me mergulhar no oceano da tristeza e incompreensão.

Até lá, sigo. Como diria Mário Quintana, "o diabo, é deixar de viver!!".

C.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Mylord:

Navego.

A água se me apresenta disforme, informe, indefinível. Imprevisível. Penso que poderei aportar em alguma ilha. Mas relembro de golpe que estou em um mar de porcelana e gosto de vulcão. Não há rota possível. Não terei como manter uma linha reta, uma vez que a volição desejante produz uma dobra barroca que não se desvela tão facilmente. O coração se abre, uma língua em fogo se desdobra - depliè. Se tento elaborar uma bússola, somente se esta for abstrata. Se desenha em uma pele que está salpicada de ilhas. Meu corpo se faz continente. Meus anseios se fazem contingência. Somente dois traçam uma rota no corpo um do outro.

Engraçado como a água é libidinosa; penetra frestas, encontra buracos e entradas. Quando sensibilizada, a terra insular apreende cada gesto, cada gota de um suor imaginário pelo amor que ondas fazem. Movimentos de ir e vir, ondulações da água como uma coluna vertebral ondulando-se sobre o corpo em sexo, desejo e frêmito. A espuma das águas flutuantes evocam um gozo marítimo em terras onde impera uma doçura em águas paradas. O vento leva gemidos, a areia carrega cristais de prazer. O vento canta. "Never is a promisse". Toujour avec moi. Toujour encore. En corps. Em corpo.

Ao contrário do que se pensa, a palavra nem sempre comunica nada. Enquanto esse objeto sem forma definida, somente toma consistência num beijo que não acontece mas se evidencia nas dobras finas de um tecido que decresce distâncias. Ergue sensaçãos tão súbitas e imensas quanto ondas. Mas que também tem a duração das mesmas.

Quer saber a real função da arte?

A arte conserva.

Há um amor que se deseja conservar. Mas ondas partem do todo somente para fenecer...Não é a beleza da flor em si, diria Roland Barthes, mas o exato e decisivo momento em que esta irá fenecer e o doce momento em que a pétala irá cair. Mas essa breviedade se eterniza na sensação. A palavra nem sempre dá conta desse monumento que se ergue, da volição.

E querubins barrocos ainda carregam guirlandas a bater asas delicadas para que ainda se conserve o ritmo da respiração que ouvirias se em meu continente pudesses ser o mar...

Embraces...
C.
(Imagem de autoria de Cassiano Stahl. Todos os direitos reservados. Permitida reprodução, desde que citado o autor).